{"id":36395,"date":"2024-04-21T12:32:00","date_gmt":"2024-04-21T15:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/aida-dos-santos-participa-do-centenario-das-negritudes-esportivas\/"},"modified":"2024-04-21T12:32:00","modified_gmt":"2024-04-21T15:32:00","slug":"aida-dos-santos-participa-do-centenario-das-negritudes-esportivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/?p=36395","title":{"rendered":"A\u00edda dos Santos participa do Centen\u00e1rio das Negritudes Esportivas"},"content":{"rendered":"<p><\/p>\n<div>\n<p>O Projeto Centen\u00e1rio das Negritudes Esportivas recebeu neste fim de semana\u00a0a primeira mulher brasileira a chegar a\u00a0uma final ol\u00edmpica:\u00a0A\u00edda dos Santos, de 87 anos. A atleta compartilhou, em bate-papo com o p\u00fablico, sua experi\u00eancia nas Olimp\u00edadas de T\u00f3quio, em 1964, quando foi finalista e conquistou o 4\u00ba lugar no salto em altura, al\u00e9m de outros momentos da carreira.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1713715564_246_ebc.png\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/1713715564_223_ebc.gif\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p>A atleta guarda at\u00e9 hoje, e fala isso com empolga\u00e7\u00e3o, o diploma que ganhou na ocasi\u00e3o. \u201cCheguei em casa feliz da vida. Em quarto lugar, ganhava um diploma, eu tenho esse diploma at\u00e9 hoje. Lindo, lindo de morrer!\u201d, afirmou\u00a0\u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>. Nascida em Niter\u00f3i, ela conta, com orgulho, que se formou em educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, geografia e pedagogia, e que atuou nas tr\u00eas \u00e1reas.<\/p>\n<p>No salto em altura, foi campe\u00e3 sul-americana no Peru (1961) e campe\u00e3 ibero-americana na Espanha (1962). Foi 3\u00ba lugar no Pan-Americano no Canad\u00e1 (1967) e na Col\u00f4mbia (1971), ambos em pentatlo.<\/p>\n<p>A\u00edda relata que, na ocasi\u00e3o das Olimp\u00edadas de T\u00f3quio, enfrentou uma s\u00e9rie de dificuldades, j\u00e1 que n\u00e3o tinha patroc\u00ednio nem t\u00e9cnico, usou uniforme improvisado e era a \u00fanica mulher da delega\u00e7\u00e3o brasileira. A atleta diz\u00a0que chorou diversas vezes diante da falta de apoio e materiais b\u00e1sicos para os treinos e a competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia da prova de classifica\u00e7\u00e3o, da qual sairia o nome para as Olimp\u00edadas de T\u00f3quio, A\u00edda j\u00e1 teve um dos muitos entraves que enfrentaria at\u00e9 chegar \u00e0 final da competi\u00e7\u00e3o. \u201cMinha m\u00e3e falou: \u2018voc\u00ea pode ir, mas tem um compromisso: voc\u00ea vai ter que carregar \u00e1gua &#8211; morava no morro &#8211; lavar a roupa, encerar a casa, depois voc\u00ea vai. E assim eu fiz, a\u00ed fui\u201d, lembrou.<\/p>\n<p>Chegando ao Maracan\u00e3, local dos testes, ela disse ao t\u00e9cnico que havia desistido. Ele ent\u00e3o perguntou se ela n\u00e3o tinha descansado para a prova. \u201cEu falei para ele: \u2018s\u00f3 vim aqui para dar satisfa\u00e7\u00e3o, nunca fui \u00e0 Olimp\u00edada, nem quero ir \u00e0 Olimp\u00edada, porque estou cansada. Descansei carregando \u00e1gua, lavando roupa.\u201d<\/p>\n<p>Diante da insist\u00eancia do t\u00e9cnico, ela saltou e conseguiu atingir o \u00edndice necess\u00e1rio para se classificar. \u201cA\u00ed falaram: \u2018mas ela n\u00e3o tem uniforme, porque a Olimp\u00edada j\u00e1 \u00e9 m\u00eas que vem, toda a equipe masculina do Brasil j\u00e1 est\u00e1 com seus uniformes, nem d\u00e1 tempo de fazer. Eu disse:\u00a0\u2018tenho um uniforme do campeonato ibero-americano que foi na Espanha\u2019. E afirmaram:\u00a0\u2018ent\u00e3o, \u00e9 com essa roupa que voc\u00ea vai\u2019. A\u00ed,\u00a0com essa roupa desfilei\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 em T\u00f3quio, na chegada ao alojamento, a equipe de v\u00f4lei masculino com quem a atleta havia chegado ao pa\u00eds foi instalada, mas A\u00edda n\u00e3o. \u201cTinha que ter assinado a documenta\u00e7\u00e3o paro o alojamento. E, quando olhei, n\u00e3o tinha nenhum brasileiro. Eles j\u00e1 tinham assinado, o t\u00e9cnico deles tinha ido embora, fiquei sozinha. E os japoneses querendo que eu assinasse, eu n\u00e3o entendia nada. Veio um dirigente com uma folha, apontou\u00a0e cantarolou [a m\u00fasica \u2018Parab\u00e9ns pra voc\u00ea\u2019]. Eu falei: \u2018\u00e9 a data do meu nascimento que tem que colocar\u2019 e coloquei a data\u201d.<\/p>\n<p>Na pista de atletismo da Vila Ol\u00edmpica, A\u00edda via as outras atletas com seus treinadores. Aquele foi um dos diversos momentos em que ela conta que chorou. \u201cQuando\u00a0terminaram [de treinar], o japon\u00eas guardou o material e\u00a0eu fui atr\u00e1s dele. A\u00ed toquei nele, apontei, ele me deu o material. E comecei a treinar. Se estava fazendo certo ou errado, n\u00e3o sei. Fui sozinha, sem t\u00e9cnico, sem material, sem nada\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Para a disputa ol\u00edmpica, ela conseguiu de improviso um t\u00eanis que era usado em corrida, n\u00e3o no salto em altura. Mesmo sem o cal\u00e7ado adequado para a modalidade e ap\u00f3s torcer o p\u00e9 na fase eliminat\u00f3ria, A\u00edda disputou a final e terminou em quarto lugar, com um salto de 1,74 metro.<\/p>\n<p>Apesar do p\u00e9 torcido, a atleta conseguiu participar da disputa final, ap\u00f3s ajuda de um m\u00e9dico cubano. \u201cMiguelina Cobi\u00e1n, de Cuba, me viu mancando, e chamou um m\u00e9dico cubano. Ele fez uma botinha de esparadrapo no meu p\u00e9 para eu ir pra final. Na final, fui saltando, saltando, mas o p\u00e9 incomodando. Depois que\u00a0fiz\u00a0[salto de] 1,74m, n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00e3o de continuar\u201d, contou.<\/p>\n<p>\u201cMas, ali, eu n\u00e3o sabia nem qual a classifica\u00e7\u00e3o em que estava entre as 20 [competidoras]. Depois que tomei conhecimento, quando cheguei \u00e0\u00a0Vila Ol\u00edmpica,\u00a0eu estava em quarto lugar\u201d, lembra. Na volta ao Brasil, recebeu homenagens. \u201cO avi\u00e3o aterrissou, me deram um buqu\u00ea\u00a0de flores, eu aceitei, agradeci, fiquei feliz da vida. Depois, quiseram que eu fosse no carro do Corpo de Bombeiros para desfilar na cidade, porque saiu at\u00e9 no jornal\u201d.<\/p>\n<p>Quando terminou a competi\u00e7\u00e3o, o t\u00e9cnico estadunidense perguntou se ela tinha psic\u00f3logo. \u201cN\u00e3o tenho nem t\u00e9cnico, vou ter psic\u00f3logo?, respondi.\u00a0Ele falou: \u2018u\u00e9, voc\u00ea ganhou das americanas, elas t\u00eam t\u00e9cnico, psic\u00f3logo, como \u00e9 que pode?\u2019\u201d. Esse mesmo t\u00e9cnico americano veio ao Brasil para ver as instala\u00e7\u00f5es do Botafogo, onde A\u00edda treinava.<\/p>\n<p>\u201cEle ficou horrorizado. Eu vinha de um pedacinho de terra, um pedacinho de gama, saltava num buraco de areia. Os postes eram madeira com prego e o sarrafo era um cano d&#8217;\u00e1gua. Ele falou: \u2018n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer esse resultado sem t\u00e9cnico, sem material adequado, sem nada\u2019. Na \u00e9poca, eles me ofereceram bolsa de estudo na Calif\u00f3rnia, mas meus pais n\u00e3o me deixaram ir\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>A\u00edda acredita que o pa\u00eds tem potencial no esporte, mas lamenta a falta de apoio ao esporte de base. Ela chegou a treinar crian\u00e7as, mas precisava arcar com os custos e teve que encerrar o trabalho por falta de apoio. \u201cEu fiz est\u00e1gio na Alemanha e nos Estados Unidos e\u00a0vi que\u00a0n\u00f3s temos potencial. S\u00f3 que ningu\u00e9m quer trabalhar com as crian\u00e7as de base, trabalhar na base. Primeiro \u00e9 dif\u00edcil, depois melhora, mas ningu\u00e9m quer. S\u00f3 quer atleta feito, atleta completo. \u00c9 pena que o governo n\u00e3o olhe para esse lado\u201d, disse.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>, Camila Boehm &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/esportes\/noticia\/2024-04\/aida-dos-santos-participa-do-centenario-das-negritudes-esportivas\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Fonte: Agencia Brasil <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Projeto Centen\u00e1rio das Negritudes Esportivas recebeu neste fim de semana\u00a0a primeira mulher brasileira a chegar a\u00a0uma final ol\u00edmpica:\u00a0A\u00edda dos Santos, de 87 anos. 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