{"id":22595,"date":"2023-05-30T07:32:00","date_gmt":"2023-05-30T10:32:00","guid":{"rendered":"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/sociologa-ve-relacao-entre-ataques-a-escolas-e-violencias-do-cotidiano\/"},"modified":"2023-05-30T07:32:00","modified_gmt":"2023-05-30T10:32:00","slug":"sociologa-ve-relacao-entre-ataques-a-escolas-e-violencias-do-cotidiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/?p=22595","title":{"rendered":"Soci\u00f3loga v\u00ea rela\u00e7\u00e3o entre ataques a escolas e viol\u00eancias do cotidiano"},"content":{"rendered":"<p> <\/p>\n<div>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o de conflitos &#8220;menos graves&#8221; no ambiente escolar \u00e9 medida que pode contribuir para evitar futuros ataques violentos. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 da soci\u00f3loga Val\u00e9ria Cristina de Oliveira, pesquisadora e professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Segundo ela, \u00e9 preciso dar voz aos alunos que s\u00e3o v\u00edtimas de microviol\u00eancias no cotidiano, sejam elas praticadas por profissionais adultos ou por colegas.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1685449179_527_ebc.png\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/1685449179_926_ebc.gif\" style=\"width:1px; height:1px; display:inline;\"\/><\/p>\n<p>&#8220;Mesmo que n\u00e3o seja um evento de viol\u00eancia grave hoje, ele pode se desdobrar no futuro em outro de viol\u00eancia grave em decorr\u00eancia do silenciamento&#8221;, disse nessa segunda-feira\u00a0(29), durante debate com transmiss\u00e3o\u00a0<em>online<\/em>\u00a0que reuniu pesquisadores da UFMG de\u00a0diferentes\u00a0\u00e1reas. Eles apresentaram dados de variados estudos e fizeram\u00a0uma discuss\u00e3o sobre o tema &#8220;Por uma cultura da paz: combate \u00e0 viol\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Segundo um dos<a rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-05\/brasil-teve-23-ataques-escolas-mais-da-metade-nos-ultimos-4-anos\">\u00a0levantamentos<\/a>\u00a0mencionados, divulgado na semana passada pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Instituto Sou da Paz, ocorreram no pa\u00eds 24 ataques a escolas nos \u00faltimos 22 anos. Mais da metade desses epis\u00f3dios, no entanto, est\u00e3o concentrados nos \u00faltimos quatro\u00a0anos. Na maioria deles, os agressores s\u00e3o alunos ou ex-alunos com m\u00e9dia de idade de 16 anos.<\/p>\n<p>Um dos casos que tiveram forte repercuss\u00e3o neste ano\u00a0ocorreu em mar\u00e7o, quando uma pessoa morreu e cinco ficaram feridas na Escola Estadual Thomazia Montoro, no bairro Vila S\u00f4nia, em S\u00e3o Paulo. O crime foi cometido por um de seus alunos, de 13 anos. Nos \u00faltimos anos, epis\u00f3dios similares que geraram grande como\u00e7\u00e3o no pa\u00eds tamb\u00e9m foram promovidos por estudantes ou ex-estudantes, como os registrados em Aracruz (ES) no ano passado e em Suzano (SP) em 2019.<\/p>\n<p>Um <a rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-04\/crescem-casos-de-ataques-em-escolas-especialistas-dizem-o-que-fazer\">estudo recente<\/a> da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) tra\u00e7ou o perfil mais frequente entre os autores dos ataques: homens jovens brancos, geralmente com baixa autoestima e sem popularidade na escola. Tamb\u00e9m foi observado que muitos deles tinham ind\u00edcios de transtornos mentais n\u00e3o diagnosticados ou sem o devido acompanhamento. S\u00e3o quadros que podem se desenvolver ou se agravar pela dificuldade de relacionamento nas escolas, o que pode ocorrer, por exemplo, com os que s\u00e3o alvos de\u00a0<em>bullying<\/em>.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria integra o Centro de Estudos de Criminalidade e Seguran\u00e7a P\u00fablica (Crisp) e o N\u00facleo de Pesquisas em Desigualdades Escolares (Nupede), dois grupos cient\u00edficos da UFMG que fazem\u00a0investiga\u00e7\u00f5es sobre o assunto. &#8220;O ac\u00famulo de pequenas viol\u00eancias repercute em dificuldades na conviv\u00eancia. A deteriora\u00e7\u00e3o do tecido social pode ser a consequ\u00eancia negativa de v\u00e1rios eventos menos graves&#8221;, reitera.<\/p>\n<p>Segundo um estudo desenvolvido pelo Crisp em 2012, em escolas estaduais de todas as regi\u00f5es de Minas Gerais, 48% dos estudantes adolescentes declaravam ter sido v\u00edtimas de\u00a0<em>bullying<\/em>, 20% de ter sofrido agress\u00e3o f\u00edsica e 40% de ter sido roubado ou furtado nos \u00faltimos 12 meses. Al\u00e9m disso, mais de 30% disseram ter sido alvo de viol\u00eancia verbal de colegas ou professores.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raros os casos envolvendo essas agress\u00f5es com emprego de arma de fogo e com mais v\u00edtimas, em que ocorreram outras\u00a0situa\u00e7\u00f5es menos graves anteriormente,\u00a0pouco administradas ou sem que houvesse\u00a0alguma administra\u00e7\u00e3o dos conflitos. &#8220;Isso ocorre, entre outras coisas, porque n\u00e3o tivemos a oportunidade de ouvir e escutar os principais alvos dessas pequenas agress\u00f5es. O perfil desses agressores tende a convergir para algu\u00e9m que tenha inser\u00e7\u00e3o social limitada na escola, que tenha sido v\u00edtima de\u00a0<em>bullying<\/em>, que sofra exclus\u00e3o de alguma natureza&#8221;, diz Val\u00e9ria.<\/p>\n<h2>Solu\u00e7\u00f5es<\/h2>\n<p>No fim do ano passado, 11 pesquisadores de universidades de diversos estados do pa\u00eds\u00a0elaboraram um<a rel=\"nofollow noopener\" target=\"_blank\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/geral\/noticia\/2023-04\/especialistas-defendem-espacos-de-expressao-de-sentimentos-em-escolas\"> documento<\/a>\u00a0propondo estrat\u00e9gias concretas para a a\u00e7\u00e3o governamental. Coordenado pelo professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Daniel Cara, eles ressaltaram que os casos deviam ser classificados como extremismo de direita, pois a maioria deles envolve coopta\u00e7\u00e3o de adolescentes por grupos neonazistas que se apoiam na ideia de supremacia branca e masculina e os estimulam a realizar os ataques. A presen\u00e7a de s\u00edmbolos associados a ideologias de extrema-direita tem sido recorrente nesses epis\u00f3dios violentos.<\/p>\n<p>De acordo com o documento, esses grupos disseminam um discurso que valoriza o preconceito, a discrimina\u00e7\u00e3o, o uso de for\u00e7a e de armas de fogo, encorajando direta e indiretamente atos agressivos e violentos. &#8220;\u00c9 necess\u00e1rio compreender que o processo de coopta\u00e7\u00e3o pela extrema-direita se d\u00e1 por meio de intera\u00e7\u00f5es virtuais, em que o adolescente ou jovem \u00e9 exposto com frequ\u00eancia ao conte\u00fado extremista difundido em aplicativos de mensagens, jogos, f\u00f3runs de discuss\u00e3o e redes sociais&#8221;, registram os pesquisadores. Segundo eles, medidas s\u00f3 ser\u00e3o eficazes se considerarem esse cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em uma busca pela palavra &#8220;escola&#8221; no <em>site<\/em> da C\u00e2mara dos Deputados, Val\u00e9ria encontrou 312 projetos de lei apresentados em 2023. Chamou a aten\u00e7\u00e3o o grande volume de propostas que datam do dia 5 de abril, quando um ataque a uma creche em Blumenau (SC) resultou na morte de quatro crian\u00e7as. A legenda com mais proposi\u00e7\u00f5es \u00e9 o Partido Liberal (PL), de Jair Bolsonaro. Em seguida aparecem o Uni\u00e3o Brasil e o Progressistas (PP), que compuseram a base de apoio durante o governo do ex-presidente.<\/p>\n<p>&#8220;Nem todos esses projetos est\u00e3o ligados \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia nas escolas, mas a coincid\u00eancia entre o pico de apresenta\u00e7\u00f5es e a data do ataque nos mostra que esses eventos foram extremamente relevantes para que houvesse um movimento pol\u00edtico justamente daqueles grupos que t\u00eam sido apontados como associados a discursos que estimulam comportamentos violentos. E a maior parte dos projetos de lei sugere\u00a0interven\u00e7\u00f5es no campo da seguran\u00e7a. H\u00e1 muitas propostas de uso de detectores de metais, implanta\u00e7\u00e3o de c\u00e2meras, presen\u00e7a de policiais no espa\u00e7o escolar. S\u00e3o estrat\u00e9gias de interven\u00e7\u00e3o que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente eficazes&#8221;, diz a pesquisadora da UFMG.<\/p>\n<p>Solu\u00e7\u00f5es dessa natureza v\u00eam sendo criticadas por diversos especialistas, que observam que o aumento do aparato de seguran\u00e7a nas escolas n\u00e3o resolveu o problema nos Estados Unidos, onde os epis\u00f3dios acontecem h\u00e1 mais tempo e com mais frequ\u00eancia. Val\u00e9ria cita estudos em que fatores como viol\u00eancias pr\u00e9vias, rejei\u00e7\u00e3o pelos pares e clima escolar negativo s\u00e3o associados aos casos. &#8220;Ter mais dispositivos de seguran\u00e7a p\u00fablica n\u00e3o contornam isso&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Entre suas sugest\u00f5es para enfrentar o atual cen\u00e1rio est\u00e1 a constru\u00e7\u00e3o de canais de comunica\u00e7\u00e3o para escuta e acolhimento das v\u00edtimas de conflitos escolares, maior foco no aprendizado de todos e n\u00e3o na puni\u00e7\u00e3o disciplinar, aten\u00e7\u00e3o aos princ\u00edpios de equidade e de justi\u00e7a e desenvolvimento de pol\u00edticas de sa\u00fade e assist\u00eancia para atendimento integral da comunidade e promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade mental. Ela tamb\u00e9m defende maior restri\u00e7\u00e3o no acesso a armas de fogo e investiga\u00e7\u00e3o de den\u00fancias da atua\u00e7\u00e3o de grupos que estimulam a viol\u00eancia nas redes sociais.<\/p>\n<p>Val\u00e9ria afirma que \u00e9\u00a0preciso criar novos mecanismos para registrar os casos de conflitos e de viol\u00eancia nas escolas, que permitam ampliar o monitoramento e a discuss\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que apenas os epis\u00f3dios mais graves aparecem nos registros policiais. Em um mapeamento das ocorr\u00eancias registradas pela Guarda Municipal de Belo Horizonte em 2015, os eventos mais frequentes em escolas municipais foram dano ao patrim\u00f4nio, vias de fato e amea\u00e7as.<\/p>\n<h2>Desinforma\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p>Durante o debate, a pesquisadora Geane Carvalho Alzamora, vinculada\u00a0ao Departamento de Comunica\u00e7\u00e3o da UFMG, observou que a circula\u00e7\u00e3o da desinforma\u00e7\u00e3o e dos discursos de \u00f3dio precisam ser enfrentados com um letramento midi\u00e1tico. Segundo ela, pesquisas com jovens j\u00e1 revelaram a dificuldade de muitos em conseguir diferenciar um texto com informa\u00e7\u00f5es verdadeiras de outro com\u00a0<em>fake news<\/em>.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00e3o basta desmentir. N\u00e3o se combate desinforma\u00e7\u00e3o com verdade. Se combate desinforma\u00e7\u00e3o com educa\u00e7\u00e3o&#8221;, diz ela. Geane avalia, por\u00e9m, que as institui\u00e7\u00f5es de ensino precisam de uma estrat\u00e9gia para lidar com esse desafio. &#8220;N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de educar as pessoas para usar os meios. Precisamos entender o que os jovens est\u00e3o fazendo com os meios. A escola hoje passa alheia a esse problema&#8221;.<\/p>\n<p>O professor da Faculdade de Direito da UFMG, Fernando Jayme, defendeu o tratamento dos conflitos escolares por uma perspectiva de justi\u00e7a restaurativa. Ele avaliou que o sistema punitivo \u00e9 falho e que \u00e9 preciso apostar no di\u00e1logo e na media\u00e7\u00e3o dentro das institui\u00e7\u00f5es de ensino.<\/p>\n<p>&#8220;Isso passa pelo reempoderamento das escolas. A viol\u00eancia e a desinforma\u00e7\u00e3o v\u00eam deixando a escola muito vulner\u00e1vel. A escola \u00e9 um ambiente que acolhe a diversidade e \u00e9 um territ\u00f3rio de intera\u00e7\u00f5es humanas tensionadas pelas diferentes individualidades. Os conflitos representam janelas de oportunidades para ressignificar rela\u00e7\u00f5es, transformando-as, restaurando-as, reparando-as&#8221;.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>, L\u00e9o Rodrigues &#8211; Rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2023-05\/sociologa-ve-relacao-entre-ataques-escolas-e-violencias-do-cotidiano\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Fonte: Agencia Brasil <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A solu\u00e7\u00e3o de conflitos &#8220;menos graves&#8221; no ambiente escolar \u00e9 medida que pode contribuir para evitar futuros ataques violentos. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 da soci\u00f3loga Val\u00e9ria Cristina de Oliveira, pesquisadora e professora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 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