{"id":22214,"date":"2023-05-21T14:10:00","date_gmt":"2023-05-21T17:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/mudou-minha-visao-de-mundo-diz-ex-aluna-de-cursinho-popular\/"},"modified":"2023-05-21T14:10:00","modified_gmt":"2023-05-21T17:10:00","slug":"mudou-minha-visao-de-mundo-diz-ex-aluna-de-cursinho-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltaredonda.rio.br\/?p=22214","title":{"rendered":"&#8220;Mudou minha vis\u00e3o de mundo&#8221;, diz ex-aluna de cursinho popular"},"content":{"rendered":"<p> <\/p>\n<div>\n<p>Brena Carvalho foi aluna do curso preparat\u00f3rio ao vestibular do Projeto de Ensino Cultural e Educa\u00e7\u00e3o Popular (Pecep) em 2017. No ano seguinte, depois de passar para a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), retornou ao projeto, j\u00e1 como volunt\u00e1ria. Hoje, rec\u00e9m-formada em pedagogia ele reconhece o papel transformador do Pecep.<\/p>\n<p>\u201cFoi muito essencial para mim. Se eu n\u00e3o tivesse entrado, teria uma perspectiva muito diferente sobre faculdade, sobre vis\u00e3o de mundo mesmo\u201d, diz ela. Uma trajet\u00f3ria similar vem sendo trilhada por Thiago Lins. Morador do Rio de Janeiro, ele est\u00e1 de malas prontas para Jo\u00e3o Pessoa. Em julho, come\u00e7am suas aulas do curso de letras da Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB). Para ser aprovado, ele estudou no curso preparat\u00f3rio da UniFavela. Assim como Brenda, ele \u00e9 grato pela experi\u00eancia e tamb\u00e9m resolveu contribuir com o projeto como volunt\u00e1rio: ele agora faz parte do grupo pedag\u00f3gico e vem atuando tirando d\u00favidas dos alunos.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cPor mais dif\u00edcil que seja o ensino p\u00fablico, que eles sempre tenham em mente que \u00e9 um avan\u00e7o na vida deles. \u00c9 uma experi\u00eancia nova que eles conseguem; \u00e9 uma oportunidade de conhecimento maior, de conhecer novos lugares, novas pessoas, sem esquecer de onde vieram\u201d, disse Lins \u00e0 <strong>Ag\u00eancia Brasil<\/strong>.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>O Pecep e o Unifavela s\u00e3o atualmente organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais consolidadas na capital fluminense. O Pecep surgiu em 2001 ap\u00f3s o marcante sequestro do \u00f4nibus 174 em 2000, no qual os passageiros foram feitos de ref\u00e9ns por Sandro do Nascimento quase cinco\u00a0horas. Um document\u00e1rio do diretor Jos\u00e9 Padilha retratou o caso, associando a personalidade criminosa do sequestrador \u00e0s viv\u00eancias de sua inf\u00e2ncia e \u00e0 falta de oportunidades na vida.<\/p>\n<p>Na \u00e9poca, os alunos que costumavam usar o \u00f4nibus 174 como meio de transporte para chegar \u00e0 Escola Parque, localizada\u00a0no bairro da G\u00e1vea e pr\u00f3ximo \u00e0 Rocinha, decidiram dar in\u00edcio a um projeto que pudesse contribuir para mudar a realidade da comunidade \u00e0 sua volta. Assim surgiu o Pecep, um cursinho pr\u00e9-vestibular comunit\u00e1rio que prepara alunos que conclu\u00edram ou est\u00e3o no \u00faltimo ano do ensino m\u00e9dio a um custo de R$ 40 mensais, j\u00e1 com o material inclu\u00eddo.<\/p>\n<p>O projeto desenvolve suas atividades para moradores de comunidades de baixa renda da zona sul carioca, entre as quais a Rocinha. Os professores volunt\u00e1rios s\u00e3o alunos e ex-alunos da Escola Parque, que cede seu espa\u00e7o para a iniciativa. O curso abre 70 vagas anualmente. Nos \u00faltimos sete anos, o Pecep atendeu a mais de 450 estudantes. Dentre os alunos que ficam no pr\u00e9-vestibular por tr\u00eas anos, a taxa de aprova\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a 100% e, por dois anos, 89%.<\/p>\n<p>T\u00e3o logo terminou o ensino m\u00e9dio, Brena Carvalho tentou o Ensino Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem)\u00a0mas n\u00e3o teve boas notas para entrar no ensino superior e decidiu esperar mais um ano. Encorajada pela fam\u00edlia, decidiu entrar no curso do Pecep, que dava para conciliar com o trabalho em uma creche da Rocinha, onde mora com os pais.<\/p>\n<blockquote>\n<p>\u201cFoi bem cansativo. N\u00e3o foi f\u00e1cil por conta do trabalho e dos desafios da vida. Mas o Pecep me ensinou muita coisa. Foi onde eu criei muita consci\u00eancia cr\u00edtica e pol\u00edtica. Vi que eu poderia expor minhas opini\u00f5es sem medo. Me vi encorajada. Sou muito grata ao Pecep, por isso retornei depois como volunt\u00e1ria. \u00c9 um ambiente de muito acolhimento e, de certa forma, torna tudo mais leve, porque o ambiente de pr\u00e9-vestibular costuma ser muito pesado. O Pecep fez tudo parecer mais f\u00e1cil.\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>J\u00e1 o Unifavela surge em 2018 no Complexo da Mar\u00e9, na zona norte do Rio de Janeiro, de forma improvisada. Um estudante de letras e duas\u00a0de hist\u00f3ria come\u00e7aram a dar aula para dez\u00a0jovens na laje da resid\u00eancia de um desse alunos. Todos eles foram aprovados em universidades p\u00fablicas, impulsionando o projeto. No ano passado, a\u00a0organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental (ONG)\u00a0recebeu o pr\u00eamio Sim \u00e0 Igualdade Racial 2022, organizado pelo Instituto de Identidades do Brasil (ID_BR).<\/p>\n<p>Al\u00e9m de facilitar o acesso de jovens \u00e0s universidades, a meta \u00e9 estimular tamb\u00e9m os adultos da regi\u00e3o a ingressar no ensino superior. No curso, jovens e adultos adquirem conhecimento por meio de uma a\u00e7\u00e3o interativa e gratuita. S\u00e3o oferecidas vagas para 39 alunos. Em 2022, foram 11 alunos regulares durante todo o ano e nove ingressaram na universidade at\u00e9 mar\u00e7o de 2023, o que significa quase 100% de aprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado defendida no ano passado na Universidade Estadual Paulista (Unesp), a pesquisadora Carolina Campagni estudou os cursinhos populares e observou que eles englobam quest\u00f5es que v\u00e3o al\u00e9m do ingresso nas universidades, atuando como espa\u00e7o emancipador que tem a pot\u00eancia de ampliar a vis\u00e3o de mundo. S\u00e3o tamb\u00e9m espa\u00e7os de afeto e de identifica\u00e7\u00e3o de seus participantes, o que poderia explicar por que muitos alunos voltam posteriormente como volunt\u00e1rios.<\/p>\n<p>Segundo Carolina Campagni, os cursinhos populares come\u00e7am a emergir com maior intensidade no final do s\u00e9culo 20 como forma de enfrentamento das desigualdades sociais. Foi uma resposta \u00e0 falta de pol\u00edticas que garantam equidade de direitos no acesso ao ensino superior para camadas mais vulner\u00e1veis e marginalizadas da popula\u00e7\u00e3o. &#8220;Isso se deu junto com o levante populacional pelas a\u00e7\u00f5es afirmativas para a popula\u00e7\u00e3o negra, ambos conduzidos por movimentos sociais&#8221;, escreve em sua pesquisa.<\/p>\n<p>Ao analisar a experi\u00eancia do Cursinho Popular TRIU, em Campinas, Carolina\u00a0pontuou que a pedagogia do afeto e o acolhimento praticados &#8220;s\u00e3o fundamentais para que exista um aprendizado efetivo dos conte\u00fados, desencadeando no ingresso de seus estudantes nas institui\u00e7\u00f5es de ensino superior&#8221;. Apesar disso, ela pontua que somente estes projetos n\u00e3o s\u00e3o suficientes para sanar as lacunas causadas pelas injusti\u00e7as sociais, j\u00e1 que existem in\u00fameras quest\u00f5es de ordem econ\u00f4mica, social, cultural, estrutural com as quais\u00a0eles n\u00e3o s\u00e3o capazes de lidar. &#8220;Algumas antecedem e outras sucedem o ingresso dos estudantes nos cursinhos&#8221;, observa.<\/p>\n<h2>Apoio<\/h2>\n<p>Os cursinhos populares oferecem aulas gratuitas ou a pre\u00e7os acess\u00edveis para alunos de baixa renda. Por isso, muitas vezes, precisam estabelecer parcerias para desenvolverem e ampliarem suas atividades, podendo atender a um maior n\u00famero de alunos. Uma das parcerias firmadas pelo Pecep e pelo Unifavela foi com o Instituto Phi, uma ONG\u00a0que atua criando pontes entre doadores individuais ou empresariais e projetos considerados investimentos que d\u00e3o retorno social e que possibilitam a mensura\u00e7\u00e3o os resultados. Os dois cursinhos recebem apoio por meio de recursos humanos, alimenta\u00e7\u00e3o, materiais e equipamentos.<\/p>\n<p>A parceria est\u00e1 ocorrendo pelo segundo ano consecutivo. Segundo o analista de projetos do Instituto Phi, Matias Hernandez, os resultados dos dois cursinhos chamam a aten\u00e7\u00e3o, com altas taxas de aprova\u00e7\u00e3o. Segundo ele, o Unifavela j\u00e1 impactou diretamente a vida de mais de 100 estudantes durante os \u00faltimos quatros anos.<\/p>\n<p>\u201cSempre que os doadores quiserem continuar apoiando causas de educa\u00e7\u00e3o, a gente pode continuar\u201d, afirmou. O Instituto Phi levanta dados dos projetos que atendam \u00e0s demandas que chegam dos doadores. Segundo Hernandez, um\u00a0mapeamento junto ao pr\u00e9-vestibular do Pecep mostrou que o curso preferido pelos alunos no Enem foi pedagogia. Levando em conta tamb\u00e9m o Unifavela, os estudantes dos dois projetos optaram ainda por direito, enfermagem, administra\u00e7\u00e3o, matem\u00e1tica, ci\u00eancias econ\u00f4micas e da computa\u00e7\u00e3o, f\u00edsica, arquitetura, engenharia el\u00e9trica e civil, m\u00fasica, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, letras, sa\u00fade coletiva, nutri\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>Um dos desafios dos cursinhos populares ao firmar parcerias envolve a manuten\u00e7\u00e3o de sua autonomia de gest\u00e3o. O pesquisador Felipe Pinto Sim\u00e3o, que tamb\u00e9m estudou os cursinhos populares em disserta\u00e7\u00e3o na Unesp conclu\u00edda em 2020, chamou aten\u00e7\u00e3o para casos em que empresas privadas financiam materiais did\u00e1ticos que perpetuam uma vis\u00e3o meritocr\u00e1tica pautada em um ensino que valoriza apenas a memoriza\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o de conte\u00fados. Ele questiona a capacidade de se oferecer uma forma\u00e7\u00e3o cr\u00edtica a partir dessas apostilas.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de a pesquisa n\u00e3o oferecer dados suficientes para compreender os interesses dessas empresas privadas que financiam o material did\u00e1tico nos cursinhos populares, questiona-se aqui o papel destes \u00faltimos \u2013 que &#8216;dependem&#8217; de um sistema apostilado \u2013\u00a0enquanto espa\u00e7os de (trans) forma\u00e7\u00e3o social&#8221;, escreveu.<\/p>\n<\/p><\/div>\n<p>, Alana Gandra e L\u00e9o Rodrigues &#8211; Rep\u00f3rteres da Ag\u00eancia Brasil<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/educacao\/noticia\/2023-05\/mudou-minha-visao-de-mundo-diz-ex-aluna-de-cursinho-popular\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow noopener\">Fonte: Agencia Brasil <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brena Carvalho foi aluna do curso preparat\u00f3rio ao vestibular do Projeto de Ensino Cultural e Educa\u00e7\u00e3o Popular (Pecep) em 2017. 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